33 44

Igreja Matriz de Odiáxere

A igreja Matriz de Odiáxere é um dos templos construídos na órbita do Manuelino de Lagos, e um dos que melhor revela a qualidade dos arquitectos, planos e motivos decorativos empregues neste tardio e regional foco artístico. O portal principal é a principal peça do conjunto, de arco de volta perfeita, a lembrar o portal da Sala do Refeitório do Convento de Nossa Senhora da Conceição de Beja (RAMOS, 1996, p.92). O intradorso é profusamente decorado por motivos entrelaçados, enquanto que um elegante cairel ocupa toda a bandeira do arco, motivo menos comum no Manuelino algarvio, mas perfeitamente integrado na corrente tardo-gótica, como se comprova pela sua ampla utilização no Mosteiro da Batalha, ainda na primeira metade do século XV.
Variam muito as opiniões acerca da origem da localidade, sendo certo que os vestígios de ocupação humana identificados na freguesia remontam à Pré-História. José de Jesus Martins acredita que o templo que hoje podemos observar é o resultado de múltiplas transformações de um primitivo monumento construído durante o domínio árabe (MARTINS, 1995, p.50), mas nenhum elemento cronologicamente tão recuado foi, até ao momento, encontrado. O facto de a capela-mor possuir exteriormente arcadas cegas bem pronunciadas, de arco de volta perfeita, assentes em poderosas colunas-contrafortes, faz pensar na reutilização de um anterior edifício, mas o facto é que parecem ser típicos torreões de época manuelina e de tradição mudéjar, característicos de algumas das mais importantes construções do ciclo manuelino do Sul do país (em especial do Alentejo).
No reinado de D. Manuel, Odiáxere viveu uma época de esplendor, que a campanha construtiva da igreja matriz tão singularmente simboliza. Nos séculos seguintes, o templo foi amplamente modificado, mas a qualidade artística dessas reformulações nunca atingiu o mérito da do período manuelino.
De 1677 é uma lápide que se conserva associada à igreja, que deve corresponder a uma remodelação então efectuada (MARTINS, 1995, p.51). Ainda que desconheçamos, por completo, os trabalhos efectuados no século XVII, colocamos a hipótese de se ter tratado de uma obra de reformulação arquitectónica e espacial, que preparou o enriquecimento do interior com um retábulo e os painéis de azulejos azuis e brancos. Estes elementos barrocos conservam-se apenas parcialmente: do retábulo, chegaram até nós duas colunas pseudo-salomónicas e o sacrário (LAMEIRA, 2000, p.169); do revestimento azulejar, alguns silhares. No entanto, é possível datá-los da primeira metade do século XVIII, pouco depois da data referida na lápide e coincidindo com o momento de maior expansão deste tipo de obras. À primeira metade do século XVIII corresponde ainda um Crucifixo em marfim, de tradição indo-portuguesa, actualmente na sacristia. 
No século XIX deram-se grandes transformações, especialmente na fachada principal, datando dessa altura a radical reformulação da empena e a reconstrução da torre sineira.

Pesquisar